sábado, 12 de setembro de 2009

Ivan Pedro de Martins - Um grande autor gaúcho esquecido


Na verdade ele era mineiro, Ivan Pedro de Martins. Andou pela Campanha no fim da primeira metade do século passado. A exemplo de outro mineiro, Guilhermino César, encantou-se com o que viu. O trecho que segue é do livro “Caminhos do Sul”, edição da Globo (1946), quando ainda era da família Bertaso.
Já mencionei este autor em outro blog de minha autoria, mas volto a ele, aqui, pois fico encantado por ter dado atenção à região mais meridional do Rio Grande do Sul (e do Brasil), o que não é comum nos autores locais. É uma pena, também, que as obras que tratam da literatura rio-grandense não façam menção a ele.
O que vai a seguir transcrito é um trecho do “Caminhos do Sul” e descreve um temporal em pleno campo, coisa muito comum por estes pagos.
“O ar estava pesado. Tio Virgílio pensava que o melhor era por a carga no boliche e esperar que a tempestade passasse. A tormenta se aproximava. O sol era um tição vermelho no borralho das nuvens cinzentas. Esfiapadas, as nuvens brancas saíam como lã de novelo das bandas do sul e formavam uma cola de pomba no céu esbranquiçado. Os cachorros andavam de língua pendurada, sentados debaixo dos cinamomos, pois não aguentavam ficar deitados.
- Vai ser gorda. Disse tio Virgílio. Os outros concordaram.
O dia morria sufocado de eletricidade e o céu parecia inverter a abóbada em nuvens cada vez mais negras e mais próximas da terra, espremendo o ar úmido que oprimia os homens. Já era quase noite quando o ar parou completamente, como se esvaziasse o mundo de ruídos e um vácuo tenebroso ocupasse tudo, apertando os ouvidos e fazendo latejar as fontes. Os homens se olharam e Laudelino riu. O barulho da risada repercutiu pelas coxilhas silenciosas e um trovão profundo a terminou, acompanhando o chispaço que cruzou de uma nuvem a outra sobre o boliche.
- Aí vem ela.
E se desencadeou uma sarabanda de raios e trovões, cortando o ar em todas as direções, unindo o céu e a terra em ziguezagues ofuscantes que carbonizavam árvores ou estatelavam vacas e ovelhas. A chuva começou com um granizo grosso como ovos de quero-quero, branqueando o campo com as pedras brilhantes, que saltavam ao golpear o chão, depois se despencou em cataratas, imensos cordões de água, unidos e parelhos a ponto de mais semelhar o derramar gigante do mar que o esfiapar de nuvens prenhes de umidade. Em poucos minutos estava o corredor transformado em regato barulhento e o pátio do boliche em lagoa que escorria pelos valos naturais em direção do Espantoso. A noite que chegava se apressou a em ficar negra e no escuro soava aquele chuá sem fim sobre as santa-fés do rancho do Laudelino. Os trastes estavam dentro do galpão, os bois no potreiro e a carreta não era a primeira tormenta que aguentava. Ele estava sequinho no boliche.”