segunda-feira, 13 de abril de 2015

A cidade de Rio Grande em 1906 vista por Virgílio dos Santos Abreu


O texto que segue é de autoria do meu falecido tio Virgílio dos Santos Abreu, irmão da Celina, minha avó materna. Virgílio costumava escrever para os sobrinhos sobre a família Santos Abreu, originária de São Lourenço do Sul (RS), contando episódios por ele vividos ou sobre fatos e personagens da história familiar.

"No dia 3 de maio de 1906, procedente de São Lourenço e acompanhado do meu pai, José Maria dos Santos Abreu, cheguei na cidade de Rio Grande. Viajáramos num daqueles iates que transportavam os produtos da colônia, atravessando com mar calmo a Lagoa dos Patos. Chegamos ao porto do Rio Grande às 11h. O comércio estava fechado em virtude de ser feriado em comemoração à descoberta do Brasil.

Ficamos hospedados na residência de minha tia Teresa, que era viúva do Almirante Alves Nogueira. Dois meses depois mudei-me para a residência dos meus tios Nicanor (irmão do meu pai) e Brasília, que me acolheram como filho.

Naquela época, também residia em Rio Grande minha tia Damazinha, viúva do Almirante Abreu, mas preferi ir pra a casa do tio Nicanor, que era a bondade personificada. Ele havia sido Intendente de São Lourenço e, depois, dedicou-se ao comércio exportador. Quando seu barco (Menino Deus) naufragou carregado nas proximidades de Mostardas, na Lagoa dos Patos, contraiu uma forte pneumonia e, depois de restabelecido foi trabalhar com representações em Rio Grande.

Os irmãos elegantes Virgílio (e), David (D) e Dario, que não entra nesta história



 Nicanor dos Santos Abreu

Minha tia Brasília, sempre muito ativa, o ajudava fazendo doces, que eu distribuía no comércio varejista. Eles tinham dois filhos, Mário e Maria, sendo que esta contava com 13 anos e frequentava o Colégio das Freiras (Colégio Joana D’Arc). Eu, às vezes, ia buscá-la e vínhamos de mãos dadas. Minha tia queria que eu a namorasse, mas eu achava que a Maria, sendo uma menina bonita e educada, merecia melhor casamento e eu a considerava como uma irmã. O Mário, depois de trabalhar no banco Pelotense em Bagé e Santa Maria, foi transferido para Curitiba, onde casou e deixou o Banco, passando a trabalhar com madeiras, onde ganhou muito dinheiro e, depois, mudou-se para São Paulo, onde, guiado pela estrela da sorte, continuou a trabalhar em madeiras, comprou fazenda de café e duas tecelagens de seda, importando o fio de seda do Japão. E, quando rebentou a Segunda Grande Guerra, ele estava com um grande estoque de fio de seja japonês, que lhe deu um grande lucro. Foi quando ele comprou um luxoso palacete numa das esquinas da Av. Brasil em SP. Nessa ocasião, convidou-me para trabalhar com ele, mas eu preferi ficar na minha Cachoeira querida.

Minha tia Teresa (casou com Cap. Mar Guerra J. Antônio Alves Nogueira) tinha três filhos, João, Perpétua e Zélia. João Alves Nogueira foi desembargador do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul[1]. e exerceu interinamente o cargo de Governador do Estado no afastamento do Dr. Borges de Medeiros. Zélia casou-se com seu colega de academia e mais tarde mudou-se para Santa Catarina, onde deixaram uma numerosa e listre prole. O marido era primo e adversário político de Nereu Ramos, que o perseguiu muito, tendo falecido como Desembargador. A Zélia, quando noiva, eu é que, ao ouvir o apito rouco do vapor Vênus, do Loyd Brasileiro, corria para o Correio buscar sua correspondência e encontrava o mesmo cheio da famílias francesas aguardando correspondência de Paris.

Durante minha estada na cidade de Rio Grande, tive oportunidade de assistir a importantes acontecimentos, além das festividades pela abertura da barra, assisti à inauguração de sua primeira usina elétrica, na Rua Almirante Abreu, a dos bondes elétricos, partindo da avenida Buarque de Macedo, na Cidade Nova e a chegada do Dr. Afonso Penna.

Recém havia terminado meus estudos primários e não tinha recursos para continuar estudando e poder ingressar na Marinha, o que era o meu sonho. Apesar de ter vindo de uma vila do interior, tinha um certo desembaraço e logo me adaptei à vida da cidade, pois SLS já possuía boas sociedades, cinema, telefone e luz elétrica, o que naquela época poucas cidades possuíam. SLS, com seus barcos sulcando a Lagoa dos Patos, transportando seus produtos para Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre, estava em franco progresso. Somente anos depois, com as novas estradas alcançando as colônias, a progressista vila perdeu seu comércio e seus barcos desapareceram. Meu cunhado, Mena (Germano Dieckmann), possuía um desses barcos, de nome Vencedor, à época em que morávamos no sobrado dos meus avós, à margem da Lagoa (hoje, Hotel-fazenda do Sobrado). 

Germano "Mena" Dieckmann


Naquela época, a cidade de Rio Grande também estava em franco progresso, com o início dos trabalhos de abertura da barra, construção de seu novo porto e a instalação de luz e bondes elétricos, a cargo de uma companhia francesa. O Ginásio Lemos Júnior recém havia sido fundado, mas não possuía curso noturno. Foi nessa época que fundaram o primeiro clube de futebol do Brasil, o Esporte Clube Rio Grande. Também foi criado o Tiro Brasileiro nº 1.

Arrumei um emprego num armazém atacadista, de propriedade do português Joaquim José Taveira, onde trabalhava das segundas aos sábados, das sete às 18h, e, à noite, fazíamos serão até as 21h. Para passear, somente dispunha dos domingos e feriados à tarde, quando não chovia.

Eu consegui uma licença para, duas vezes por semana, estudar contabilidade no horário da noite, pagando R$ 20.000 (vinte mil réis), ou seja, 20% dos meus vencimentos de R$ 100.000 (cem mil réis). Foi este curso que, mais tarde, me serviu para ingressar no Banco Pelotense, em Cachoeira do Sul e para obter meu título de Contador na Superintendência do Ensino Comercial, no Ministério da Educação.

Sonho de Amor

Naquela época, o que eu mais apreciava era uma licença para ir visitar meus familiares em São Lourenço, visitar suas lindas praias e namorar suas garotas. Foi numa dessas visitas que conheci uma linda e esbelta garotinha, tipo “bibelou”, que me deixou tonto de amor. Era uma nossa vizinha – morávamos à margem do São Lourenço, em companhia de nossos primos Candoca e Mimosa e eu palestrávamos sorrateiramente, meio acanhados em sua residência, ou através de uma cerca de taboas que dividia nossas propriedades. Meses depois, fui para Bagé, como viajante comercial, e, daquela cidade de moças bonitas e endinheiradas, escrevi para minha irmã Zeca (Maria José), pedindo notícias do meu lindo “bibelou” e até hoje estou esperando resposta. Completamente desiludido, e julgando-me desprezado, resolvi passar uma esponja no pensamento e esquecer este episódio.

Minha saudosa mãe foi a estrela para a completa felicidade

Eu me encontrava em Bagé, quando recebi de um colega a proposta de emprego na firma atacadista de João Aydos e Cia, em Porto Alegre. Aceitando a proposta, tomei um trem para Porto Alegre, via Cacequi, e pernoitei em Santa Maria, na véspera da fundação da União dos Viajantes. Resolvi, então, interromper a viagem para assistir aos festejos de fundação daquela associação. Dia 22, ao passar por Cachoeira do Sul, quando os trens ficavam uma hora naquela cidade, para o almoço, eu resolvi trocar este pelos afamados sonhos de Rio Pardo e desci a movimentada rua Sete de Setembro, com seus carroções das colônicas descarregando e carregando mercadorias, parecidos com os de São Lourenço e seu porto repleto de embarcações.

A Praça das Paineiras, em plena primavera, toda florida exalando seu perfume foi o quanto serviu para eu ficar encantado com a cidade que mais tarde ofereceu-e por longo tempo as maiores alegrias e felicidade da minha longa vida.

Era o dia do aniversário de minha mãe (Conceição) e foi isso que me obrigou a deixar o trem na Estação e conhecer a bela cidade de Cachoeira. Depois de ir ao Telégrafo, na rua Saldanha Marinho, regressei satisfeito e alegre à estação, quando o trem já havia dado o sinal de partida. E, se não fosse o aniversário de minha mãe, eu teria passado por Cachoeira, como passei pelas cidades de Rio Pardo e Montenegro sem o menor interesse em conhecê-las.

Porto Alegre

Ao chegar em Porto Alegre, meu emprego já estava ocupado devido à minha demora. Depois de dois meses sem emprego, apenas vendendo artigos escolares da Livraria Selbach no comércio varejista e arrobas de encalhe do jornal Correio do Povo para embrulho, adquirindo por R$ 1 a arroba e vendendo-as a R$ 2.000 e pagando R$ 3.000 de frete, ia me defendendo para as despesas diárias. Os cafezinhos, os jornais e as passagens de bonde custavam cem réis.

Depois, comecei a trabalhar na Cia. Singer, como comissionado de um vendedor, ganhando a metade da comissão por cada máquina (de costura) vendida, ou sejam, R$ 10.000. Mais adiante, como eu já havia trabalhado três meses na cidade do Rio Grande, como seu vendedor, consegui minha nomeação. O empregado da Singer para qual eu vendia, deu um desfalque e então invertera-se os papéis, ele me dava seus candidatos e eu realizava as vendas. Eu ganhava R$ 20.000 mais 10% e dava R$ 10.000 para o ex-vendedor. Nas máquinas que vendia direto, eu ganhava R$ 22.000.


A Singer tinha agência na Rua da Praia, Azenha e Floresta. Eu trabalhava nessa última, próximo a três fábricas de cerveja onde eu tinha entrada franca. Dos 15 vendedores da Singer, eu era o que, aos sábados, faturava mais máquinas, ganhando dinheiro à beça, mas não soube economizar. A primeira coisa que eu fiz foi pagar a conta no Hotel Sarger e montar uma “república”, na Rua São Rafael (Alberto Bins), abastecê-la para os cafés da manhã e da tarde, não faltando o bom vinho do Porto, que custava R$ 2.000 o litro. Telegrafei para Pelotas, chamando meu irmão David para ser meu auxiliar e fomos fazer nossas refeições na Pensão de Dona Mocinha, na subida da Rua da Praia. Foi nesta ocasião que eu travei relações com o comerciário Gustavo Ilha e os estudantes de medicina Henrique Barros e Ângelo da Cunha Carlos, sendo que este último foi mais tarde nosso médico em Caçapava e Cachoeira do Sul.

Estávamos muito satisfeitos, vendendo muitas máquinas,quando rebentou a Grande Guerra em agosto de 1914. No Correio do Povo os curiosos iam ler os telegramas recém fixados à sua frente, noticiando as últimas declarações de guerra e as marchas dos exércitos. A princípio, as vitórias da Alemanha, para alegria da colônia alemã que encha as casas de chope dando vivas!

Santa Maria

Devido à Grande Guerra, as máquinas Singer subiram muito e as vendas paralisaram. Por tal motivo assustei-me e resolvi transferir minhas atividades para Santa Maria, como vendedor da Singer e aguardando uma vaga de seu gerente na cidade de Cachoeira do Sul, que era os meus sonhos. Em Santa Maria, o que eu mais gostava era todas as tardes, depois do expediente, dar um passeio com os colegas para ver as moças que estavam nas janelas de suas residências."


*As fotos são do arquivo pessoal do proprietário do blog



[1] Residia em uma casa de dois pisos ainda existente na Rua Fernando Machado, em Porto Alegre.

Um comentário:

Jefferson Dieckmann disse...

Belas histórias de família! Sempre gostei e admiro muito tudo isso! Parabéns, primo Lauro Dieckmann!!!